13/07/2013

Resposta a um jovem conformista

 Chamou-me a atenção um comentário  entre vários postados no facebook da plataforma "Que se lixe a troika":

"X.: Concordo com o PR, eleições não são a solução. Basta olhar a Bolsa: se os juros só com esta crise já dispararam, imaginem com a queda do governo. Além disso, a troika é que nos paga os salários e não iria aceitar a queda do governo. Não concordo com este governo ou com a troika, mas acho que não temos dinheiro para brincar aos governos".


É um comentário que traduz a mentalidade da minoria social que ainda apoia este governo e a absurda política da "troika". Mas é também a propaganda típica das agências de desinformação pagas para assediar os media, fazendo-se passar por "gente com dúvidas", quando em ambientes anti-troika.

Aqui vai a minha resposta.



Caro X.:

A sua pouca idade talvez explique em parte um comentário tão simplista. Mas sei que muita gente madura, com a cabeça cheia de "teias de aranha",  pensa do mesmo modo. Esta resposta é, pois, extensiva a todos os que têm ideias turvas como as suas.

1º ponto. A troika é que nos paga os salários?

Saiba que a troika não paga, nem dá nada a ninguém! 
Eles emprestam dinheiro, sim, como o FMI fez já com muitos países, não por altruismo, mas na base de juros predadores. Embora o verdadeiro objetivo seja o de nos amarrarem a políticas que convêm à Alemanha e a alguns outros. Essas políticas, baseadas no euro forte e no "livre comércio" garantem, às multinacionais europeias e a alguns países, os seus gigantescos negócios no mercado global, mas destroem as empresas e os  países mais vulneráveis.
Acha que é por acaso que a crise das dívidas soberanas surge em todos os países após a entrada em vigor do euro? 

06/07/2013

Portugal: oposição ou divagação?





Começa a ser gritante a apatia de plataformas como  "15 de Outubro", "Que se lixe a troika", etc.
Tamanha letargia e falta de estratégia cheira a esturro. E cheira a infiltração do(s) partido(s) que desde há décadas congela(m), fazendo-as degenerar em mero ritual, as lutas de base e induzindo no povo um conformismo que choca, perante a dimensão da tragédia nacional e as indignidades cometidas pelo atual governo, à revelia de inúmeras leis e do próprio Estado de Direito.

O atrelamento daquelas plataformas independentes à Intersindical, como se viu na concentração de sábado em Belém, é um sinal óbvio da sua falta de imaginação e de estratégia autónoma, contrariando a atitude da fase em que apareceram. O que terá a ver certamente com a falta de experiência e de preparação económica e política dos respetivos líderes, mas também com a provável penetração dessas plataformas por elementos dos partidos do centralismo burocrático de inspiração estalinista. A experiência triste da luta recente dos professores, de 2008 nomeadamente, que levou à rua maciçamente a classe, em gigantescas manifestações promovidas por estruturas autónomas, e depois foi sendo desmobilizada pela Fenprof/Intersindical, foi exatamente essa.


Face ao absurdo da situação, a estratégia da "oposição", por outro lado, é patética.

Enquanto o PS, pondo um ar sério, pede eleições e uma audiência ao PR, acreditando levá-lo a romper com quem tem sido sistematicamente cúmplice, o BE reclama num tom mais duro eleições imediatas e faz uma arruada, enquanto o PCP faz o mesmo, mas trazendo para a rua em Lisboa poucas centenas de pessoas que,  segundo o Avante de 5 do corrente (ver vídeo), seriam mais que 1.000.

Será com estas formas de atuação débeis, dispersantes, e sem imaginação, que acham que vão desalojar os agressivos agentes da chantagem política "troikana" ao serviço da capitulação nacional ?

A gravidade da situação exigiria que, no mínimo, os partidos suspendessem a sua regular participação na AR e ameaçassem cortar os laços institucionais com quem colabora nesta política. Paralelamente, exigiria uma atitude pró-ativa de formação duma grande frente popular, unindo todas as forças políticas e sociais contra a eminente ameaça que paira sobre o País.

Mas nada disso se passa. Cada partido parece mergulhado em transe autista, continuando a fazer folclore de protesto, enquanto conta votos a pensar nas próximas eleições.

O prosseguimento desta atuação é o pré-anúncio da derrota dos interesses populares e nacionais, por muito que se propalem palavras de ordem retóricas de que "a luta continua".






02/07/2013

Portugal: governo desagrega-se

A situação vem-se precipitando nas últimas horas.

Após a súbita demissão do ministro das Finanças e o anúncio de que a substituta seria uma das suas Secretárias de Estado, o  ministro dos Negócios Estrangeiros, líder do parceiro da coligação governamental, apresentou também a sua demissão, dando-a por irreversível.

Embora as coisas em Portugal venham tendo um cunho surreal, com a falta de vergonha da direita, persistindo com um governo e uma política repudiados pela generalidade da população - bem patente nas gigantescas  manifestações do ano passado e de 2 de Março com mais de 1 milhão de pessoas em todas as cidades do país, as maiores de toda a Europa - ainda assim, seria insólita a continuação deste governo, quando os sinais de apodrecimento são já tão evidentes.

Colocam-se no imediato algumas questões:

- O que mantém Passos Coelho numa teimosia patética que roça a provocação ao País? Mesmo depois de a população repudiar as políticas da troika, repúdio que avança já à própria base governamental, e quando são reconhecidos internacionalmente os números do desastre  (ver: Le Monde, artigo "Portugal face à derrota da política de austeridade")  (1)

- Para além do óbvio e quase único apoio das forças estrangeiras que conceberam estas políticas, haverá ainda algo mais por detrás, oculto, na resistência  do PR à demissão deste governo?

- Existirão outras soluções, para além da dissolução da AR e de eleições? Por exemplo, poderá o segundo  partido da coligação fazer cair o governo na AR, e propor um novo governo com o apoio do PR?

- Dada a prolongada conivência do atual PR com as injustiças praticadas por Passos , terá alguma credibilidade um governo ainda mais dependente deste órgão institucional?

Perguntas um pouco retóricas, já que a resposta é óbvia. De facto, o que se entrevê como cenário  plausível é a marcação de eleições legislativas a breve trecho.

Seja qual for a solução, com o atual quadro partidário, mesmo refrescado por eleições, mantendo-se  os vícios de partidocracia e de oportunismo eleiçoeiro que domina a generalidade dos partidos, perspectiva-se a continuação do pântano.

A única hipótese regeneradora seria a entrada em cena duma nova formação política, abrangente e inovadora, capaz de assumir as causas do descontentamento popular, e de renovar o sistema político, impondo uma ruptura com o dictat alemão e procurando as alianças internacionais necessárias para uma nova liderança europeia que protegesse mais as fronteiras externas da UE - única forma de travar a invasão de bens de terceiros, reindustrializar e criar empregos - e praticasse uma maior proximidade com os cidadãos, ao mesmo tempo respeitando  as identidades nacionais e regionais dos europeus, não enveredando por fugas para a frente dum maior federalismo como alguns, apatetada ou mal intencionadamente, querem.

(1) Números do desastre: em apenas 2 anos de desgoverno, de resgate da banca privada e destruição deliberada de empregos,  Passos, Vitor & Portas conseguem pior do que nos 3 piores anos do "famigerado Sócrates". O ritmo de endividamento do Estado, atualmente, está em mais de 5.000 milhões de euros por trimestre,  cerca de 2 milhões por hora. Alucinante! A par disso, em 2012, o PIB sofria uma quebra de 3,2%, o défice governamental subia para 6,4% e a dívida pública atingia os 123,6% do PIB, e 127,3% no 1º trim./2013 (fonte: Negócios) . Face aos 108% registados em 2011, são 20% de endividamento em 2 anos!




20/06/2013

Um video brasileiro que não passou nas TVs

Impressionante, a multidão no metro de São Paulo cantando o hino e repetindo "O povo unido, jamais será vencido" durante as manifestações espontâneas (clique na imagem abaixo)

Situação - concentração convocada por redes sociais, culminando na entoação do hino nacional - que se repete, desde as grandes cidades até às pequenas vilas do interior e dos subúrbios. O total de manifestantes, por cálculos objectivos, deve ter atingido  uns 4 milhões só em 20 de Junho, incluindo nesse número tanto as demonstrações pacíficas como as que terminaram em violência sobre bens materiais. Na generalidade, sem a presença de símbolos partidários e sem direção ou coordenação centralizadas. Temas: Não à corrupção e ao excesso de impostos, não aos gastos na Copa do Mundo quando falta dinheiro para saúde, educação, transportes públicos, não à má gestão pública.

Exames: um testemunho de quem está no terreno


Sendo eu professor da Escola Sá de Miranda, importa fazer um relato daquilo que se passou durante a manhã de hoje, especialmente por três razões: para memória futura; para contrariar alguns badamecos que tudo farão para criar uma "realidade" alternativa que em nada se parece com o que aconteceu; numa tentativa de defender os alunos que foram, sem exceção, prejudicados pela incapacidade e intransigência do Ministério da Educação.
Para início, dos cerca de 300 professores convocados para hoje, apenas cerca de 20 apresentaram-se. A adesão à greve foi superior a 90%, e das 22 salas em que o exame deveria ter sido realizado, decorreu em 7. O Ministro pode dizer que 70% dos alunos realizaram o exame, mas em que condições? E passo aqui a relatar as condições em que os cerca de 120 alunos que realizaram o exame no Sá de Miranda o fizeram. E ressalvo que só falo de situações que vi ou que se comprovam com o relato de vários alunos.
- o toque para o início do exame deu-se às 9h37. Isto não quer dizer que os alunos tenham começado a fazer a prova neste momento, porque alguns professores vigilantes (quase todos do 1º, 2º e 3º ciclo) atrapalharam-se com as versões e, pelo menos numa sala, os exames foram distribuídos 4 vezes;
- os professores da escola reuniram-se no Auditório e, por volta das 10h, um dos colegas que vinha de fora da escola disse-nos que um grupo de alunos (depois verifiquei que seriam cerca de 50) tinham saltado as grades e circulavam pelos corredores das salas onde o exame estava a ser realizado. Logo de seguida, fomos informados (ainda no Auditório) que a PSP tinha sido chamada e estava a circular na escola. Posteriormente os alunos afirmaram (alguns para as câmaras de televisão) que entraram nas salas, incitando os colegas a sair, enquanto os vigilantes fechavam as portas e diziam aos examinandos para continuar o exame. Cantava-se nos corredores a "Grândola, Vila Morena" e pontapeavam-se portas fechadas;
- a PSP demorou cerca de uma hora a conseguir que os alunos que circulavam na escola saíssem. Mesmo assim os alunos pararam nas escadas de acesso para cantar o Hino Nacional;
- apesar dos alunos terem começado o exame com vários minutos de atraso, quando se ouviu o toque do fim das duas horas, já os primeiros examinandos estavam no portão da escola, o que significa que os vigilantes não respeitaram a indicação de fazer todos os alunos esperarem pelo toque para abandonar a sala;
- um grande número de alunos afirmava ter ouvido telemóveis a tocar durante o exame, enquanto outros garantiram que os alunos que estavam a fazer exame comunicaram, sem problemas, o conteúdo do exame para quem estava de fora.
Foi nestas condições que os alunos fizeram o exame. Não sei se terá sido assim para os 70% do Crato, mas, se foi, que grande exame!!!
Há que assinalar também que foi a primeira vez em muitos anos (estou nesta escola desde 2000) que a inspeção não marcou presença no 1º dia de exames. Vá-se lá saber porquê.

Colegas, partilhem, por favor. Estas situações não podem ser branqueadas e não é possível que o Ministério sequer tente falar em "normalidade".

18/06/2013

Professores portugueses resistem ao terror económico


Como professor que fui toda a minha vida profissional, não obstante já aposentado, só posso rever-me nesta luta da classe docente, traduzida numa greve que abrange dias de exames nacionais.
O governo, atropelando a lei da greve e pondo em causa as normas de segurança nos exames através do uso de equipas improvisadas, poderá até dizer que "levou a água ao moínho".

Mas os impressionantes 90% de adesão à greve, o semi-caos em que terá decorrido o processo de exames em muitas  escolas (ver relato acima) - processo que tinha  tradições de rigor milimétrico em Portugal , conheço-o bem pois fiz parte do Comissão Nacional de Exames do Ensino Secundário - tem de  considerar-se, face a todas as pressões a que os professores foram submetidos, uma enorme vitória desta classe profissional.

Vejamos, numa breve perspectiva, como se chegou à atual situação:


1. Numa sociedade capitalista cada grupo ou pessoa impõe os seus interesses através da competição, vista como a base do sistema. A desigualdade entre profissionais, carreiras, empresas, é considerada não só normal como desejável à luz da ideologia  dominante. "Sucesso" é ser-se rico, "grande empresário", ter um "bruto" carro ou mansão ou um alto salário.

2. Neste contexto, obedecendo à mesma lógica, cada grupo profissional se organiza solidariamente na defesa dos seus interesses. Os media  mercenários, que são quase todos, tratam de denegrir este "corporativismo" de tipo sindical.

Ou seja, para eles, há uma desigualdade boa, a dos altos cargos empresariais, políticos, ou administrativos, a de certos técnicos privilegiados, futebolistas, gabinetes de engenharia, arquitetura, advocacia, clínicas de luxo, etc., e há a desigualdade  a dos profissionais assalariados que se associam na defesa da sua profissão.

3. Obviamente, esta lógica corporativa tem um preço e o seu lado perverso. É por esse e outros tipos de fatores que o ensino em Portugal se tem vindo a degradar desde meados dos anos 80.

As causas? Complexas.


4. Umas, internas à escola:

Deficiências na seleção inicial dos professores, na avaliação da carreira, na formação contínua e na avaliação do progresso dos alunos. Não menos importantes, as deficiências na gestão escolar e de todo o sistema, onde se instalou muita gente oportunista e incompetente.

5. Outras, quiçá mais importantes, externas à escola:  desestruturação das famílias, aumento dos divórcios e da quantidade de famílias monoparentais; falta de tempo dos  pais para os filhos e falta de regras firmes o que, num clima social dissolvente, favorece vícios como o alcoól, o tabaco, as drogas e a libertinagem junto dos jovens. 

Sendo desagradável e politicamente incorreto, alguém teria de dizer alguma vez o que vou dizer agora: 

Se os critérios fossem sérios, provavelmente metade dos atuais professores, assim como dos gestores do sistema, teria que sair e escolher outra profissão; e talvez mais de metade dos alunos teria que recomeçar dum patamar mais baixo a sua formação, tais os vícios instalados no sistema.

6. Mas mesmo que tivesse um funcionamento 100% perfeito, a escola falharia na sua função, porque a “matéria-prima” que recebe – os alunos – quando chegam a ela vêm num estado lastimoso, na sua maioria: falta de boas regras de relacionamento, mau domínio de funções básicas de análise, expressão e cálculo, além da escassa motivação.

A plena resolução destes problemas exigiria um reforço das equipas docentes e de apoio sócio-educativo aos alunos e suas famílias. Ora é justamente o contrário que está a acontecer, com a redução dos papéis da escola pública e uma política de cortes cegos. 

7. Por outro lado, as metodologias pedagógicas inovadoras testadas por mais de um século como o construtivismo, a escola ativa de Freinet, o Trabalho de Projeto e a Investigação Ação-Participada, combinadas com a Pedagogia por Objetivos e tantos outros métodos científicos, foram sendo adulterados por maus profissionais tanto na base como no topo do sistema, desde a sala de aula às hierarquias que planificam, passando por muitos burocratas das comissões executivas.

8. Resultado: um ensino que, embora não terceiro-mundista (nem de longe) descambou em largo número de turmas na cabulice, na pura memorização, no laxismo, tornando a escola um local desagradável, incapaz de concorrer com a internet, as consolas e a TV. Tudo isto, a par da dominância dum "eduquês" pretensioso, mas oco, entre os teóricos do sistema educativo, criou o caldo de cultura ideal para a investida sobre o sistema duns pseudo-sapientes que não passam de analfabetos pedagógicos, defensores de soluções "fáceis", simplórias, que na verdade são apenas o regresso a modelos dirigistas, rígidos e despersonalizados, baseados na memorização mecânica e no respeito servil à autoridade pela autoridade, seja essa autoridade assumida por um incompetente presunçoso ou por um profissional qualificado.


9. É exatamente essa linha "tradicionalista", na verdade prepotente e incompetente,  a seguida pelo atual ministério da educação (ME).
O contraponto por parte dos sindicatos - uma defesa das carreiras sem a devida avaliação, ou o laxismo nas regras, são a outra face da moeda.

São falsas alternativas que nunca baterão certo, estas em que o ME e os sindicatos corporativos se empenham e degladiam.

10. Os sindicatos, em particular o principal deles, a Fenprof, onde domina a linha sindical do PCP, além de terem uma resposta corporativa, cultivam há muito uma linha conciliatória de aceitar pequenas migalhas em troca de “manter o sistema” sem muitas ondas.

O seu líder principal traiu a luta há uns 6 anos atrás, após as grandes manifestações que puseram na rua 150.000 professores - quase toda a classe - e  o processo fugiu claramente ao controle da Fenprof. Questões como o horário de trabalho, a autonomia escolar, a estabilidade das carreiras, estavam em causa, assim como o desrespeito e a total demagogia por parte do ME, com práticas bárbaras como a separação  puramente arbitrária dos professores em "titulares" e "não-titulares" com o fito apenas de gerar divisionismo numa categoria onde todos já eram efetivos há décadas!

O movimento havia-se gerado espontaneamente em várias regiões, de tal modo que os controleiros sindicais não conseguiram travá-lo. Mas acabam por infiltrar-se nele para, logo que abrandou, o desviarem para acordos capitulacionistas com o ME, que negavam o sentido da luta e desmoralizavam a classe - mais uma vez.

11. É previsível que o mesmo ocorra agora. O referido dirigente da Fenprof, ao  sair da última reunião com o ME, metia "os pés pelas mãos", exibindo nervosismo ao tentar explicar a greve. 

Quem é viciado no corporativismo eleiçoeiro, só pode sentir-se desconfortável com uma luta mais radical, como esta teria que ser inevitavelmente face à tremenda instabilidade lançada na carreira, aos enormes cortes nos salários e pensões que vêm cumular anos sucessivos de perdas, e ainda o aumento do horário em 4 horas semanais.

Um pacote que é uma brutal regressão civilizacional, inimaginável há 30 ou 40 anos atrás, quando fantásticos progressos tecnológicos e organizacionais no "1º Mundo" prometiam todo o contrário e se previa, isso sim, uma redução para metade da jornada do trabalho assalariado, de modo a criar mais empregos e facilitar a vida às famílias.

Carregando o fardo dessa traição de 2007/2008, estes sindicalistas já quase não têm margem de manobra para capitularem de novo, ainda por cima face a um governo abusador, com práticas grosseiramente ilegais, como o não pagamento dos subsídios de férias determinado pelo Tribunal Constitucional.

12. Não obstante as contradições que possa ter, a luta da categoria docente é hoje a fronteira entre a barbárie da troika UE-FMI, e a dignidade deste país antigo, tranquilo e civilizado, pioneiro na conquista de direitos humanos como o direito à vida, à segurança pessoal e às liberdades fundamentais.

13. O prejuízo resultante do adiamento dum exame por 15 dias, que os propagandistas do governo vêm empolando de forma grotesca e ignorante, além de perfeitamente recuperável até numa 2ª chamada já calendarizada, nem se compara com a destruição de direitos civilizacionais como o desemprego prometido para esses 30.000 funcionários, ou os novos cortes no poder de compra de 4,5 mil milhões de euros que porão  em estado de coma a economia do País.

14. É necessário ter a exata consciência de que esta luta, mais que por direitos profissionais,  é a frente principal onde se situa neste momento o combate  contra as forças que visam provocar a degradação social e a total dependência do exterior, levando o País pelo caminho da Grécia e, em última instância, ao derrube das últimas muralhas que defendem a democracia e a independência nacional.


População brasileira sai à rua em protesto massivo





















No seguimento de campanhas movidas de forma completamente espontânea nas redes sociais, sem qualquer apoio dos media corporativos, o povo saiu à rua em vigorosos e cada vez mais massivos protestos, em todas as grandes cidades  do Brasil.

As palavras de ordem mais gritadas são "vem, vem pra rua!" e "o gigante acordou".

Conhecido mais pela sua adesão ao samba, ao pagode, ao forró e ao futebol, para lá do fanatismo induzido pelas religiões - há um templo "evangélico" em cada esquina, e muitos carros e lojas ostentam frases bíblicas - este povo mostrou que também tem gente, sobretudo jovem (cerca de 50% dos manifestantes têm menos de 25 anos e 22% do total são estudantes) bem consciente dos problemas sociais, que sente na própria pele, e que não se ilude com o discurso do "progresso para todos" nem pelo espetáculo mediático das Globos, Bands, SBTs & Cia. Lda, que quase só passam telenovelas, futebol. MMA/Valetudo, palhaçada e catadupas de séries norte-americanas altamente desligadas da sua realidade.

Como de costume, as análises dos comentadores ou correspondentes da RTPi  à situação no Brasil não passam de patetice e banalidade. A propósito disso, reforço o que já afirmei noutro ponto deste blogue, o nível de náusea a que desceu este canal que deveria representar o País, mas é uma autêntica vergonha nacional, mais parecendo uma seleção dos piores profissionais e dos piores programas.

Voltando à vaga de manifestações  no Brasil - já classificadas como um novo movimento "Diretas, já!", tal a sua extensão e força -  por mim, não tenciono estender-me em grandes análises. Ser-me-ia fácil fazê-lo do ponto de vista técnico, dado conhecer este "Brasilzão" desde há cerca de nove anos, fazendo nos últimos a vida quotidiana dum cidadão brasileiro, conhecendo por isso bem as diferenças entre o discurso "alegre e feliz" oficioso e a realidade da vida difícil, de lufa-lufa, insegurança, e difícil equilíbrio financeiro que uma enorme maioria das pessoas leva.

E não o faço, exatamente porque conheço os tiques autoritários dos setores no poder e sei das limitações e riscos pessoais que se corre nestas "democracias emergentes", nomeadamente sendo cidadão não-nacional, ainda que gozando legalmente dos mesmos direitos políticos dos brasileiros, como é o caso  (conforme tratados que garantem reciprocidade aos cidadãos da CPLP).

Por isso, com muita pena - espero que se entenda - não vou proceder à análise social e económica aprofundada que a importância dos factos impunha. Mas não resisto a dar um "cheirinho" da realidade, através dum simples zapping aos canais locais de TV.

Enquanto a omnipresente Globo - definida até há um ano atrás pela "esquerda" populista no poder como manipuladora e conivente com a ditadura dos anos 60/70, mas que recentemente parece ter-se auto-domesticado após fortissimas pressões de setores governistas -, enquanto esta "rede Globo" se limita a uma focagem distanciada das manifestações, constantemente intermediada por comentadores oficiosos (diga-se, com notória dificuldade em lidarem com a explosiva situação das ruas),  mal expondo sequer imagens dos cartazes dos manifestantes, já as outras TVs, variam muito no tratamento, um pouco caótico, ao sabor da imaginação de cada apresentador.

Parece porém começar a prevalecer em quase todas uma linha de abertura às impressionantes manifestações, procurando porém dividir os manifestantes entre os que classificam como pacíficos e os que taxam de vândalos.

Cada rede de âmbito nacional reserva diariamente um horário para programação de produção local, versando moda, música, casos de polícia e outros temas.

Por exemplo na zona onde estou, no NE, o apresentador dos "casos de polícia", um género que todos os canais locais têm sobre criminalidade, tratada sem a mínima contextualização social e onde o presumível  criminoso é exibido como troféu e condenado sem julgamento, mostrava imagens das manifestações declarando-lhes apoio, enquanto criticava a postura da presidente Dilma, não deixando porém de fazer votos para  que tudo se mantivesse no perfil pacífico. O que está longe de acontecer, para já, em cidades como SP, Rio, Brasília, BH, Cuiabá, Fortaleza e um pouco por todo o Brasil.

Uma apresentadora local, de estilo "socialite", na afiliada da Record (rede pertencente à "igreja" IURD), também manifestava compreensão pelos manifestantes, ao mesmo tempo que elogiava a rápida e "importante"  decisão do prefeito local do PT de baixar em R$ 10 centavos (!) o preço da viagem dos superlotados e inseguros "ônibus" locais.

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03/06/2013

O ECONOMÊS VEM EM SOCORRO DA POLÍTICA DE DESASTRE NACIONAL E EUROPEU

Perante o afundamento total da política da troika FMI+BCE+UE, traduzida na recessão e desemprego que já atingem o coração da Eurozona, em Portugal o descrédito da política de terror económico atinge um ponto tal que o sistema pede socorro aos pesos-pesados outsiders para tentar repôr alguma autoridade moral a este destroço à deriva que é o governo, num caminho desgovernado que não deixa de causar "mortos e feridos".

Três exemplos destes "independentes insuspeitos" são os srs. Horta Osório - CEO do Barclays Bank, em Londres -, Augusto Mateus - do ISEG, ex-ministro da Economia, e em tempos longínquos líder do radical MES -, e  Silva Lopes - ex-ministro e ex-presidente do Montepio.

O primeiro deles, em entrevista a Gomes Ferreira da SIC, vem com a história da Carochinha do país acima das posses, e que agora não só tem que pagar, como reajustar a Procura à sua capacidade de produção. O velho truque da linguagem popularucha ("viver acima das posses"), em que se descreve a Economia dum país como se fosse a duma família. Tipo, "gastaste muito, agora tens que ser poupadinho e pagar". Ôlalá. toma que já almoçaste! Com uma frase assassina calam-se todas as bocas, não é?... Oops... Mas há sempre alguém que se recusa a fazer figura de estúpido cooperante.

O azar é que este receituário é aplicado há pelo menos dois anos e os resultados são desastrosos. A Economia afunda, o Estado endivida-se exponencialmente a 2 milhões € / hora, e a dívida externa não há meio de baixar, porque entretanto tem que se pagar empréstimos com novos empréstimos acrescidos de juros e honorários da troika. Não falando no modo revoltante e grosseiramente discriminatório como se divide os portugueses em cidadãos de primeira (os grupos amigos do governo, certos empresários e altas funções) de segunda (os trabalhadores do privado) e de terceira (os reformados, desempregados e funcionários públicos) - naquilo que é já um aviltante e vergonhoso novo apartheid social.

UMA ECONOMIA NACIONAL NÃO É IGUAL À DUMA FAMÍLIA

A Economia dum país não é como a duma família. Nenhuma família urbana se quiser ter carro, casa, eletrodomésticos, roupas, energia, água, é autosuficiente. Já um país, sim, tendencialmente pode sê-lo, embora com custos pesados num sistema aberto. Mas um país pode efetivamente gerir a sua própria crise, tomando decisões em relação ao que deve produzir e como, em relação ao que deve pagar, quando e como. Apenas terá que aplicar uma palavra que parece impossível de pronunciar para alguns: RUPTURA.

A propósito, tomemos uma afirmação do citado e voluntarioso Horta e Costa (HC). Quando questionado sobre a curialidade dos métodos usados pelos EUA e RU ao aumentarem exponencialmente a emissão de moeda como estimulo à Economia, HC quis mostrar fibra e com um sorriso ligeiramente amarelo, diz: "Bom, eu não deveria responder a essa questão, mas vou fazê-lo... A solução adotada pode considerar-se válida se a considerarmos como uma exceção à regra. Dado que a economia americana estava com reduzida velocidade das transações (V), o seu governo compensou fazendo entrar mais moeda em circulação (M). É uma estratégia que pode ser usada transitoriamente".

HORTA E COSTA A INOVAR A TEORIA ECONÓMICA?

Ora aqui temos - digo eu - uma "bela" inovação da teoria quantitativa do valor da moeda, que se ensina como  explicação da inflação no primeiro ano de qualquer curso de Economia ou até no Secundário, sendo traduzida pela fórmula: MV = PT, onde M é quantidade de moeda em circulação, V  a velocidade de circulação da moeda, P o nível geral de preços e T a quantidade de transações efetuadas nessa Economia.

Como em qualquer equação, aumentando um dos lados por causa da moeda em circulação - necessariamente tem que aumentar o outro lado também, sob pena de deixar de haver equação.

Se a quantidade de moeda aumenta exponencialmente (caso dos EUA, que vem injetando triliões de dólares), é impossível que T (quantidade de transações) acompanhe esse ritmo, portanto só pode dar uma inflação acentuada, por aumento de P para equilibrar a equação. Então porque não temos aumento da inflação? É o que Horta e Costa esconde, e nisso deveria ter havido insistência do jornalista. Infelizmente, alguma subserviência, acompanhada duma certa falta de preparação, impede estes jornalistas de serem mais agressivos em questões cruciais.

A verdade é que só pode haver uma causa para o não aumento da inflação nos EUA, Reino Unido, etc. Como venho explicando neste blogue desde há muito, só não aumenta descontroladamente a inflação porque o dólar é a moeda mundial, logo, pode comprar mercadorias em qualquer parte do mundo. Elas  faltam no país emissor, os EUA? "No problemo". Há sempre "transações" mundiais suficientes para alimentar a Economia dos EUA, evitando assim a subida do  P (preços) na equação. Resta um óbice: como é que esse dinheiro que sai do país para o mundo é compensado na Balança de Pagamentos, para equilibrá-la? A única resposta só pode vir de entradas sob a forma de investimentos ou de remessas unilaterais.

Não tenho nenhuma agência de detetives ao meu serviço, mas por mera lógica, tudo aponta para o uso de offshores e negócios de fachada, para essa compensação monetária. E porquê países terceiros, como China, Brasil, países árabes, etc., deixam passar tais negócios que permitem um país rico viver à custa deles e doutros? A resposta é complexa, mas a base é manter a estabilidade do sistema que doutra forma colapsaria, arrastando o mundo inteiro. Perder um pouco para ir ganhando alguma coisa, melhor do que perder tudo numa megacrise mundial, será o raciocínio destes países.

O que pretendo provar com esta desmontagem da "teoria" do sr. HC é a miséria do economês. Estes agentes do neoliberalismo, independentemente de seguirem a via da injeção monetária fraudulenta norte-americana ou britânica (esta última através das suas múltiplas off-shores), ou a do espoliação terrorista das classes médias do sul da eurozona (de inspiração alemã), baseiam-se em teorias completamente fraudulentas. Uma das prováveis consequências que a atual crise do capitalismo está a provocar é o desmoronamento das teorias económicas tradicionais ensinadas nas faculdades, com  a demonstração de que muitas delas têm um carácter puramente ideológico e utilitário, ao serviço dos grandes interesses económicos mundiais.

Um bom exemplo é a teoria das vantagens comparativas, produzida por David Ricardo (economista inglês de origem judaica), que mais não fez do que defender os interesses imperiais da Inglaterra vitoriana, traduzidos na imposição a vários países dos produtos industrializados britânicos, reservando aos outros o papel de "especialistas" em produzir matérias pimas minerais e agrícolas, de muito menor valor.

MATEUS E LOPES FAZEM O PAPEL DE BOMBEIROS

O sinuoso Augusto Mateus, em recentes relatórios (muito bem pagos, decerto) diz-nos  que "a culpa do mau uso dos fundos europeus em 30 anos foi nossa". Porque somos "fraquinhos", e nem houve interesseirismo nenhum dos "bonzinhos" dos países do diretório europeu, subentende-se.  Já o "independente e reformado" Silva Lopes, vem muito utilitariamente declarar que as "pensões de reforma altas" devem mesmo ser cortadas e ele é dos que não se importa nada com a sua. Pois não, mas devia informar dos cargos milionários que tem tido ultimamente, entre eles o de administrador da EDP, que obteve recentemente, depois de sair do Montepio invocando (?!) excesso de idade, pelo peso dos seus 75 anos, que afinal no cargo da EDP já não lhe pesam.

Quanto a estes senhores, principalmente o primeiro - o único que valerá a pena - a quem um colega do ISEG chamava "peixe de águas profundas" (para bom entendedor) deixarei para um comentário mais aprofundado. Que este já vai longo.







10/05/2013

GOVERNO AGE PERVERSA E ILEGALMENTE, "OPOSIÇÃO" NÃO MOSTRA CAPACIDADE DE RESPOSTA

As recentes decisões do Tribunal Constitucional ilegalizaram várias rubricas do OGE 2013, algumas delas reincidentes pelo segundo ano consecutivo, caso do corte dos (impropriamente) chamados subsídios de férias e de Natal (impropriamente porque não são complementos, são sim duas das parcelas regulares anuais do rendimento-base dum cidadão).

NOTA IMPORTANTE: A Constituição, ao contrário do que alguns pensam, não é um vago conjunto de princípios que se cumpre ou não conforme dá jeito. É UMA LEI, com várias partes, capítulos e artigos, e ainda por cima é a lei máxima, à qual todas as outras têm que se subordinar. Como lei que é, caracteriza-se pela coactividade, generalidade e obrigatoriedade. Tal como o Código de Estrada, o Código Civil, ou qualquer outra lei. Portanto, tem que ser cumprida -  e por todosnão é facultativa, como parece entender o (des)Governo em exercício. Implica ou deveria implicar sanções pelo seu não cumprimento, sobretudo em caso de reincidência. É isso (também) que significa coactividade. Se um cidadão assaltar um banco, ou desviar indevidamente dinheiro da conta bancária de alguém, é condenado com uma pena exemplar. Mas pelos vistos, um governo que assalta as pensões de reforma, mesmo depois de o tribunal máximo na matéria ter ilegalizado o ato, é  considerado "normal".

PENSÕES SÃO O ÚNICO BEM MATERIAL SUSTENTÁVEL DOS APOSENTADOS

Ora as pensões de reforma são, além do mais, o único meio de sobrevivência e o mais importante bem material da grande maioria dos reformados. Esta situação, que já existia num período normal, acentua-se muito com a queda do mercado imobiliário. Quem é dono duma casa, hoje, dificilmente a consegue vender. Se conseguisse, além de ficar sem casa própria e aumentar custos com um aluguer, conseguiria com o escasso valor obtido cobrir apenas as despesas correntes da sua vida por um ou dois anos.

Assim, o confisco das pensões de reforma, - em curso há vários anos, mas acentuado despudoradamente na atual legislatura - é uma medida gravissima, autêntica condenação à morte - mais lenta ou mais rápida, conforme os casos - de pessoas na sua grande maioria físicamente debilitadas, que se programaram com base em carreiras estribadas num quadro legal, legitimado e reforçado por décadas de vigência.

E deve notar-se que o ataque aos reformados, bem como a outros setores sociais bem específicos,  sejam quais forem os pretextos usados, são uma mera tática destinada a dividir o país e atacar segmentos da população que parecem alvos mais fáceis.

OPOSIÇÕES PARLAMENTARES - WRONG ANSWER!

Infelizmente. as oposições mostram-se incapazes de responder à altura da gravidade da ofensiva do governo. Uma primeira "wrong answer" que dão é falarem em expectativas defraudadas dos cidadãos. É que isso leva a pensar que se trata apenas de expectativas subjetivas. Mas não. Trata-se de carreiras legítimadas por toda uma imensa bateria de leis, carreiras sujeitas na sua esmagadora maioria a sucessivos concursos públicos e avaliações rigorosas, tomadas de posse publicadas em D.R., com leis que vigoraram por décadas e muitas ainda vigoram. Tudo isto é muito objectivo e preciso.

Outro erro grave das oposições é designar aquilo que é apenas uma política de  espoliação e roubo, por "POLÍTICA DE AUSTERIDADE", na mesma senda das troikas agressoras.

O carácter conciliatório e capitulacionista desta forma de fazer oposição vê-se quando se deixam atrelar às mentiras perversas de quem nos desgoverna. Detalhemos:

IGUALDADE, MAS SÓ PARA ESPOLIAR E NIVELAR POR BAIXO

A maioria parlamentar agita a bandeira da igualdade no tratamento dos sectores público e privado, dando seguimento ao que afirmam ser o exigido pelo TC. Ora, acontece que o TC não disse nada disso, nem podia dizer.

A rejeição pelo Tribunal Constitucional do confisco, não teve por base nenhuma  igualdade em abstrato, ou absoluta, entre categorias de cidadãos. Nunca poderia ser esse o espírito duma constituição revista por sucessivas maiorias que fazem fé cega na economia de mercado, logo, no princípio da desigualdade que é a matriz deste sistema económico.

A igualdade de tratamento invocada, era-o especificamente em matéria de impostos, e apenas nessa. Além do artigo 13º (Princípio da Igualdade), era fundamentalmente baseada no artigo 104º, que estabelece:
"O imposto sobre o rendimento pessoal visa a diminuição das desigualdades e será único e progressivo, tendo em conta as necessidades e os rendimentos do agregado familiar".

Fica assim claro que o imposto sobre o rendimento  pessoal é:

- Único - facto a que o Governo não obedeceu e, pelo contrário,  "inventou" múltiplos impostos sobre o rendimento, contrariando o princípio do imposto único, e aplicando diferentes impostos às diferentes  categorias profissionais/sociais de trabalhadores ou aposentados
- Progressivo - o que significa que a única diferenciação que pode ser feita em matéria de impostos sobre o rendimento é a de que, quanto mais se ganha, maior é a taxa de IRS.

Ora este governo, não contente com aumentar drasticamente as taxas dos diferentes escalões de IRS (o que foi uma brutalidade, mas não necessariamente uma ilegalidade), deu-se ao desplante de criar impostos suplementares sobre o rendimento de cada categoria de cidadãos, com base na profissão ou no estatuto do reformado.

PRÁTICAS COM CONTORNOS MAFIOSOS

Já ficou claro que a igualdade que a Constituição prevê, é no tratamento perante os impostos. Não há nenhum outro tipo de igualdade (financeira, ou de carreiras, como demonstro a seguir).

O (des)Governo distorce as coisas grosseiramente não só reincidindo, como acrescentando novas inconstitucionalidades - caso da não retroatividade dos direitos e garantias - artºs 18º-2. e 19º-1 - desvirtuando assim claramente o espírito e a letra da Constituição.

É o caso da pretensa "convergência das pensões entre os setores público e o privado". Pretensa porque, além do mais, há vários e diferenciados subsistemas privados, o que o Governo omite e compara apenas com o pior deles, de modo a rebaixar o rendimento garantido contratualmente ao longo de décadas de carreira.

Ou seja, invoca-se a igualdade, mas o que se está de facto a fazer é impôr a desigualdade de direitos e oportunidades, contrariando o artº 13º-1, que diz que "todos os cidadãos são iguais perante a lei". No caso, as leis que estribaram todos os concursos e carreiras públicos. Temos aqui a sonegação do direito a ter uma carreira diferenciada, contrariamente ao que é normal. A constituição não prevê de modo algum uma equalização de rendimentos e carreiras, mas o seu contrário. É isto que significa igualdade de oportunidades. As oportunidades são iguais mas após a seriação dos candidatos o resultado lógico é a sua diferenciação com vista à escolha dos melhor classificados.

Este governo não tenciona instituir o sistema da Coreia do Norte, como parece perante o caso em apreço. Ele jamais atacará os rendimentos dos magnatas e dos altos cargos. Pelo contrário, ele defende os poderosos (sobretudo estrangeiros) e garante os direitos dos ricos e das grandes empresas, enquanto morde os tornozelos das classes médias-médias  e médias-baixas.

Aliás, a invocação de justiça social  só para atacar direitos legais das classes médias, com décadas de vigência, é recorrente. Mas começa a assumir contornos mafiosos, não só pela violência da espoliação como pela impressiva carga de mentira, inversão da verdade, que o discurso oficioso contém face à realidade.

Trata-se dum procedimento típico de máfias ou oligarquias, e seus agentes na política, justamente treinados para manipular e mentir, numa sociedade onde cada vez mais as grandes organizações esmagam literalmente o indivíduo, enquanto o poder da alta finança é mais opaco e se esconde atrás de várias cortinas ou firewalls destinados a impedir a visibilidade dos seus privilégios.

DESVIAR O FOCO DAS VERDADEIRAS DESIGUALDADES

A base desta estratégia consiste em pôr o odioso nas pequenas diferenças entre vizinhos ou profissões de nível muito próximo, omitindo e retirando completamente o foco das verdadeiras grandes desigualdades sociais, das inúmeras mordomias dos altos privilégios e castas, dos colossais lucros dos grandes grupos económicos. Poucas décadas atrás, os novos senhores feudais do capitalismo podiam dar-se ao luxo de proporcionar uma relativa prosperidade às "suas" classes médias. Então, tudo corria sobre rodas.

Hoje, perante o agravar da crise, um tal sistema deixou de ser sustentável e as novas oligarquias mundiais e respetivos mordomos nacionais tratam de manipular em nome duma pretensa igualdade - mero pretexto para nivelar por baixo e reduzir a uma existência penosa e medíocre as anteriores classes médias - enquanto tentam a todo o custo garantir que os seus  lucros não só se mantenham, como aumentem, por entre o caos económico e a degradação de crescentes camadas sociais, enquanto os media lançam continuas campanhas de confusionismo e intoxicação.

De resto, o argumento de que há privilégios para o setor público é falso. Muitas empresas privadas declaram salários falsos só para reduzirem os impostos e os descontos para a Segurança Social. No privado, as carreiras são o mais desiguais possível, algumas delas ganhando dezenas de vezes mais que as suas equivalentes no setor público: TAPs, EDPs, Bancos, Seguros, medicina privada, altas advocacia, arquitetura e engenharia, grandes multinacionais, etc. têm carreiras muito diferenciadas, tanto para os trabalhadores no ativo como para os respetivos pensionistas.

A LEI DA SELVA

Quando uma pessoa escolheu uma determinada carreira, pública ou privada, há 20, 30, 40, 50 anos, fê-lo na base de todas as vantagens e desvantagens previstas na mesma, que incluiam naturalmente as inerentes condições de passagem à reforma como parte integrante. No caso dos funcionários públicos, as carreiras têm a legitimidade suplementar de na sua esmagadora maioria terem sido objecto de concursos públicos transparentes. Se uns conseguiram entrar e outros não - tal como acontece numa grande empresa privada - foi dentro de regras e numa classificação e triagem que ninguém, na altura ou ao longo de décadas, contestou.

É por isso que num Estado de direito,  as leis não podem ter efeito retroativo, sob pena de perda total desse  princípio basilar que é a segurança jurídica, ou seja, que o quadro de vida das pessoas deve ser algo com um mínimo de estabilidade e previsibilidade, sob pena de caos social e duma espécie de lei da selva.

Mas parece ser essa lei, precisamente, a única que o (des)Governo e a sua tão venerada troika querem instaurar.

Estamos perante um verdadeiro golpe palaciano silencioso contra o Estado de direito, uma espécie de instauração dum estado de sítio não declarado, com recurso à ilegalidade mais primária.







07/05/2013

Governo desacreditado insiste na sua ofensiva contra as classes médias e o País

Depois da rejeição pelo TC de algumas das mais graves medidas do OGE 2013, como o roubo da 7ª parcela anual do rendimento-base (designada subsídio de férias), o desGoverno às odens dos grandes conglomerados internacionais não aprendeu o que quer que fosse e, mesmo desacreditado, efetua uma sistemática  ofensiva contra as classes médias - nomeadamente reformados, desempregados e funcionários do Estado -  e prepara-se para acentuar a ruína da Economia real.

Nesta nova fase,  a tática refina: para além do ataque aos setores sociais já causticados, desenvolve um truque que denunciei noutro local deste blogue , anunciando medidas terroristas - uma sobretaxa sobre os reformados - que afinal parece ser mero fogo de vista e manobra de diversão das graves medidas que de facto querem tomar.

O espetáculo dado pelo (des)Governo é patético, com  o 1º ministro a anunciar essa medida, para logo dois dias depois o ministro de Estado e parceiro da coligação governamental vir rejeitá-la publicamente.

A dúvida é se se trata de uma contradição real ou apenas duma encenação criada para "povão" e "troika" verem.

Seja como for, o efeito é o mesmo: como se dissessem ao cidadão atingido "a nossa primeira proposta é dar-te um tiro na cabeça, mas estamos abertos a negociar a hipótese de apenas te amputar uma perna".

É este grau zero, esta ignomínia selvática, a do regime apodrecido dum Portugal tutelado pela agiotagem internacional.

Entretanto, ante o silêncio cúmplice dos partidos todos, os agentes da agiotagem internacional preparam aquele que é no fundo o principal objetivo de toda a operação de "take of" sobre o Euro, essa guerra silenciosa e secreta que nos movem: a privatização das grandes empresas e bens públicos,  transporte aéreo, ensino, saúde, águas, correios, minérios e outros recursos naturais, muitos dos quais mantidos em sigilo, como o petróleo.

Porque é que nunca se fez o furo real dum poço para testar a dimensão e rentabilidade das reservas petrolíferas portuguesas? Seria interessante saber.




21/04/2013

Ex-militar denuncia atentados de Boston como encenação

Um vídeo onde o ten.-coronel Potter, que serviu os EUA por décadas em muitos lugares do mundo, denuncia o que se prepara - segundo ele o mais grave momento da História do seu país após o assassinato de Kennedy - alertando para que dissidentes da hierarquia militar norte-americana são os verdadeiros responsáveis pelo atentado de Boston.



Potter invoca detalhes - vídeos e fotos feitos por telemóveis de testemunhas - que mostram que algo não bate certo no relato oficial. Ele aponta um exercício policial sobreposto ao atentado, que terá servido de camuflagem. Aponta também que há muito tempo já a polícia americana fora prevenida por países estrangeiros dum possível atentado, assim como alertas nos altifalantes do evento desportivo avisaram de pessoas transportando mochilas, o que a polícia e o FBI ignoraram.

Refere também a coincidência das ações do FED (Banco Central) provocando a descida do preço do ouro nos mercados, enquanto o mesmo FED desincentivava os Estados que expressamente o solicitaram -  Texas, por exemplo - de fazerem o resgate do seu ouro depositado no FED.

Vale para já como reflexão. Eu mesmo - autor deste blogue - alertei há mais de um ano para o facto da economia dos EUA só não ter colapsado por esse país ser o "dono" do dólar,  moeda mundial. Estando muitos países, como a China, assim como pessoas e instituições a investir largamente em ouro como salvaguarda, a alusão ao preço do ouro pelo ten.-coronel Potter faz sentido - pode ser o início do fim do dólar como moeda mundial. Os que mandam realmente nos EUA jamais o podem permitir, dada a gravissima situação económica daquele país, omitida e dissimulada intencionalmente pelos principais media mundiais, que "bebem" das fontes inquinadas que são as autoras das encenações.

Quanto ao atentado, vale lembrar, como  o próprio Potter explica, que a CIA usou largamente tais meios para preparar golpes de estado em países no 3º Mundo, de forma recorrente ao longo de anos.

Na gravissima situação económica em que Portugal e a periferia da Europa se encontram, à beira do colapso, a articulação lógica com os factos nos EUA é essencial. De lembrar que a crise europeia foi e é provocada por ataques especulativos contra as dívidas soberanas da Eurozona, partindo de quem se esconde por detrás da Wall Street e das principais agências de rating, secundados por uma política gananciosa da Alemanha e outros, que pretendem "salvar a pele" à custa dos países mais vulneráveis.

Ainda agora, foram descobertos dezenas de contratos especulativos do tipo "swaps" feitos por empresas públicas portuguesas, efeito da pressão especulativa internacional que, deixando-as vulneráveis com a falta de financiamento barato pela subida especulativa das taxas de juro, as sujeitou a terem que fazer esses contratos especulativos em vez do financiamento normal. Só tais contratos dão um prejuízo de  mais de 3.000 milhões de euros ao Estado português num período de apenas 3 ou 4 anos. E com quem foram feitos? Nada mais nada menos que com os grandes bancos internacionais, Goldman Sachs, Morgan Bank, entre outros.

Aqui se começa a desvendar a trama das causas da guerra financeira contra a economia da Eurozona, e quem fica a ganhar com esta especulação - a grande banca internacional, como venho denunciando, desde há dois anos, pelo menos.



25/03/2013

Economista belga desmonta a vigarice da "austeridade"

Eis finalmente uma voz que fala claro, a do economista belga Olivier Bonfond.

A "crise" e as "políticas de austeridade" não são mais que uma burla e uma forma de pilhar os povos, desviando os seus recursos para os grandes bancos mundiais e para os países ricos.

Bonfond  fixa-se sobre a Bélgica, mas as semelhanças são evidentes com os outros países, incluindo Portugal.

Diz este economista que a despesa pública belga foi durante décadas, e até 2010, perfeitamente estável, não ultrapassando os  60 % do PIB.

Quais os factores que provocaram a sua acentuada subida a partir daí? Eis a resposta:

- As taxas de juros - até 1992 o Estado financiava-se quase a custo zero junto do seu próprio banco central; a partir daí,  e após Maastricht, passou a ser obrigatório fazê-lo através dos bancos comerciais a juros entre 3 e  6 por cento ou mais. A isso acresceram os efeitos dos especuladores sobre os juros das dívidas soberanas, no pós-crise de 2008.

- Os impostos anteriormente cobrados às grandes empresas, passaram entretanto a ser irrelevantes - a Bélgica é hoje um paraíso fiscal - o que fez perder ao Estado centenas de milhões de euros (em Portugal, foi isso em parte, mas sobretudo as privatizações de grandes empresas lucrativas cujos lucros deixaram de ir para o Estado)

Só a subida das taxa de juros, segundo os cálculos de Bonfond, representa cerca de 30 por cento do aumento da dívida.

Bonfond conclui ainda não só pela ineficácia das políticas de austeridade, como pela sua ilegalidade, já que no caso da Bélgica contrariam a Constituição que proíbe às políticas do Estado causarem prejuízos insuportáveis para a população em geral.

De notar que em Portugal temos um artigo semelhante na Constituição, o direito de resistência à ordem injusta. Ou seja, por exemplo uma lei que provoca prejuízos maiores que os resultantes da sua rejeição.

De resto, esta entrevista vem mostrar que o que se passa nos vários países, salvo detalhes sem grande importância, é igual: uma mesma Troika ao serviço dos grandes bancos mundiais que não é mais que uma arma apontada à cabeça dos governos e dos povos, usando da chantagem do "ou nós ou o caos" para os vergarem e encaminharem para um verdadeiro suicídio coletivo.

Bonfond assinala mesmo em certo ponto da entrevista a enorme mentira do propalado "viver acima das possibilidades". Eles diz: ao contrário, os povos vivem abaixo das suas possibilidades. O dinheiro é que é desviado para agentes externos e internos que enriquecem à custa da esmagadora maioria da população...



18/03/2013

CHIPRE - TROIKA FAZ BLOQUEAR E TAXAR CONTAS BANCÁRIAS

NOVA ESCALADA NA CONSPIRAÇÃO GLOBALISTA CONTRA A EUROPA
 
"NO PASARAN !"
 
Correm as notícias sobre Chipre: desde 6ª f ninguém pode mexer nas suas contas bancárias, sejam de que tipo forem. Os bancos fecharam, os seus websites estão inacessíveis, os multibancos secaram e não foram fornecidos. A situação é para manter,  pelo menos até 4ª f.
 
No vídeo a seguir uma francesa radicada em Nicósia indignava-se: "que culpa tenho eu pela dívida dos bancos ou pelo facto da Grécia não pagar ao Chipre?"
 
Miniatura

Entretanto a Troika, para emprestar uma tranche de 10.000 milhões de €, exige um pagamento imediato de 5.000 milhões (!!). E no caso, sem meias, passam à ação, congelam as contas bancárias e querem apropriar-se de quase 10% do seu valor, em média.

A população indignada saiu às ruas e o parlamento cipriota agendou a votação imediata do assunto. Em toda  a Europa não há registo recente de um caso como este. Chipre faz parte do Euro, tem um bom sistema bancário e uma economia desenvolvida.
 
CONCLUSÃO

No Portugal dos "chicos-espertos" que é o deste (des)Governo, vão fazendo sucessivos cortes e agravamentos de impostos. Mas como são mais cínicos, fizeram dos reformados o alvo preferencial das medidas à cipriota.

Cobardemente,  em Portugal usam o  truque sujo de dividir, tentando manter passivo o resto  da população, sob a força da inércia do egoísmo e da indiferença.

Mas é bom que ninguém se iluda. Como se vê pelo Chipre, os "troikanos" acabam por ir ao bolso de todos!

É tempo de repôr uma palavra-de-ordem, usada pelos republicanos na guerra civil espanhola ante as hordas apoiadas pelos nazis: NO PASARAN! (não passarão!)




06/03/2013

É PRECISO SEGUIR O EXEMPLO DA ISLÂNDIA!

DEPOIS DE RECUSAR PAGAR A DÍVIDA DOS BANCOS
A ISLÂNDIA TEM O TRIPLO DO CRESCIMENTO DA UE

RetIrado de blogs.mediapart.fr e de facebook.terre.envie

«Nunca deixarei de repetir que a Islândia é O PAÍS a tomar como exemplo, mesmo sendo completamente ignorado pelos media, mesmo estando longe ou seja qual for a razão para não se falar dele, este é o país que devemos seguir!
Pagar aos banqueiros? Nem em sonhos, lá eles foram metidos na prisão!
Salvar os bancos? Lá, foram nacionalizados.
Quanto ao crescimento atual, é o maior dos últimos anos.
A Islândia terminou o ano de 2011 com um crescimento económico de 2,1% e segundo as previsões da Comissão europeia, será o triplo do previsto para a UE (prevê-se 0,5% para a UE em 2012, contra 1,5% da Islândia).
Para 2013 o crescimento deverá atingir 2,7%, principalmente por causa da criação de empregos.
(...)
Apenas há alguns dias, os dirigentes das Finanças islandesas prenderam dois dirigentes bancários, que cometeram fraudes através de empréstimos fraudulentos (...)»

É importante lembrar de novo a Islândia após a nova grande manifestação de 2 de Março em Portugal.

E recordar o meu comentário sobre a Islândia AQUI, com um vídeo sobre a revolução islandesa e a demonstração das mentiras dos que dizem que a Islândia é muito diferente dos outros casos.

Não, basicamente é o mesmo: quando o Estado toma a dívida dos bancos, o país afunda-se em dívidas.  Também em Portugal, a dívida pública é apenas um terço da privada, e é o Estado que está a financiar a banca, endividando-se com a Troika nuns 20.000 milhões além do necessário. E isso faz toda a diferença, significa sair, ou não sair jamais, da crise. O sistema bancário e algumas grandes empresas endividaram-se excessivamente, porque é que a população tem de pagar isso?

A Islândia é o caminho a seguir, mesmo que lá a direita e os grandes poderes mundiais já conspirem  na sombra para tentar inverter o rumo.

EXIJAMOS UM REFERENDO  SOBRE:

- POLÍTICA DE PILHAGEM VS. RENEGOCIAÇÃO DA DÍVIDA
- ENDIVIDAMENTO AO SERVIÇO DA BANCA PRIVADA
- ALIENAÇÃO AO ESTRANGEIRO DAS PRINCIPAIS EMPRESAS!

EXIJAMOS A PRISÃO DOS POLÍTICOS QUE ROUBAM OS REFORMADOS E QUE PROVOCAM O DESEMPREGO GALOPANTE !

Este é o caminho, estas são as palavras de ordem mobilizadoras!  Não o discurso vago e medíocre dos partidos e ativistas mal preparados politica e economicamente, ou coniventes, instalados nas mordomias e moralmente podres.



02/03/2013

OS MEDIA E AS MANIFESTAÇÕES DE 2/MARÇO

Informação correta e abundante das manifestações nos noticiários da RTPi. 
Por uma vez, registe-se! Quando os media cumprem, há que elogiar, não apenas criticar... 

NOTA:  Posteriormente à colocação deste comentário, já há fortes motivos de crítica: a RTP convidou José Sócrates para novo comentador residente, num total desprezo pela opinião pública. Após mais uma gigantesca manifestação contra a troika e o "seu" governo, qual o reflexo do protesto nos media principais? Nulo, e pior, dão-se ao luxo de convidar um dos responsáveis pela vinda da troika. Não estando em causa o seu direito de defesa em relação à imolação que a direita lhe moveu, em nada se justifica a sua colocação destacada como opinador da TV do Estado. É apenas uma das muitas manobras de manipulação das forças no poder: enquanto se discute Sócrates, evita-se discutir os verdadeiros problemas do País.
Manifestação 2 de Março no Porto povo em luta
Cidade do Porto, onde no final se registaram confrontos com a PSP

Já no Brasil, a principal estação noticiosa, Globo News, passou fotos da manifestação num escasso flash de 3 ou 4 segundos, mas na mesma altura fez um debate prolongado sobre política italiana, e deu largos minutos do noticiário ao conflito israelo-palestiniano e a uma parada gay australiana, assuntos sem nenhum relevo nos media mundiais nesse 2 de março. 

Mas, leitor, não se iluda de que seja um acaso. É recorrente na Globo, desde há alguns meses, a marginalização de Portugal, numa mudança clara da política desta emissora. Emissora que, curiosamente, tem origem no jornal fundado pelo filho de emigrantes portugueses Irineu Marinho, depois herdado pelo seu filho Roberto. Ao longo da história do grupo, o segundo maior do mundo no sector, ele tem alinhado por posições dos EUA,  fazendo sempre charneira com o establishment brasileiro, o que lhe permitiu manter estável a sua influência. A revista Superinteressante (Junho,2005, pg.51) escrevia "O Brasil é a Globo", no sentido que telenovelas e demais programas deste canal são vistos desde a mais remota aldeia indígena da Amazónia até à grande cidade, acabando por ir moldando culturalmente o País.

E não acreditem no correspondente RTP Pacheco de Miranda, quando passa a ideia dum Brasil muito atento a Portugal. Ele é dos que só mostram aquilo que enche o ego português - caso, em 4/Março, da reportagem dum concerto, acompanhado de buffet, oferecidos em Brasília pela embaixada de Portugal. Uma boa comezaina é receita infalível para conquistar pela boca os convidados. Mas não passa daí.

Depois, veja-se esta declaração do pianista P. Burmester, outro reincidente nas mordomias situacionistas, na mesma reportagem: "cada vez há mais iniciativas de Portugal, como este concerto, ou o Ano de Portugal no Brasil". 

A verdade, porém,  é outra: no Brasil,  quase só se ouviu falar do Ano da França, que já foi. A correspondente da Globo em Paris, fala todos os dias e só passa coisas maravilhosas. Há constantes programas de cozinha e outras coisas francesas nas várias TVs. Mesmo no pequeno Estado onde me encontro, no Nordeste,  são frequentes as iniciativas francesas (concertos e exposições, de âmbito local ou  geral).  Em contrapartida, há um ano, tentei assistir a um festival local de filmes da CPLP (refira-se, Portugal era sómente um dos representados), mas o mesmo foi cancelado à última hora invocando problemas  técnicos.  Revelador. 

Na verdade, até a Alemanha é mais falada, como demonstra a escola de samba do Rio que homenageou neste carnaval o "Ano da Alemanha", que é o próximo. Do Ano de Portugal, passou uma mera publicidade na Globo, há meses, mas depois, na prática, nada se tem visto que atinja o grande público. Ah, conceda-se, passa nos canais de desporto locais - como já passava antes - um jogo por semana da Liga portuguesa, menos que os exibidos dos campeonatos  francês e italiano.

Enfim, relativamente ao supracitado buffet em Brasília, ele  só confirma o ditado: "com papas e bolos, ...". Para consumo interno português, claro.

GRANDE ADESÃO POPULAR AO 2 DE MARÇO

CERCA DE 1,5 MILHÃO DE PESSOAS EM TODO O PAÍS E NO ESTRANGEIRO
800.000 em Lisboa, 400.000 no Porto.

É preciso transformar o protesto em alternativas credíveis de governo, evitando cair nos braços dos mesmos que ao longo de 30 anos  fizeram o País chegar a esta situação.

E não esquecer que nenhum partido denuncia claramente os roubos incidindo sobre categorias específicas, por exemplo, os reformados e os desempregados.


Concentração final no Terreiro do Paço - Lisboa

28/02/2013

FALSAS ALTERNATIVAS DESTROEM A SOCIEDADE

Anteontem, 27/Fev, a RTPi, na série documental Linha da Frente, acompanhou um jovem casal de Gondomar na "aventura" de tentar instalar-se em Londres. Apesar das contrariedades, mau planeamento e pouco dinheiro, a narrativa que se faz passar é a do sucesso do casal.  Numa só semana já tinham emprego e estavam instalados. Que bom, né?

Em 1º lugar, estranho este documentário ir para o ar em vésperas do 2 de Março. Articulado com toda uma bateria propagandística, como no noticiário das 20h, que abriu com números "esmagadores" do défice do Estado, sublinhando que o dinheiro vai quase todo para salários e reformas.

É uma propaganda já muito repetida e suja, de bandidos ideológicos, porque:

alínea a) o DÉFICE É CULPA DO GOVERNO (e da Troika) que prometeu para este ano a recuperação económica e só provocou o desmoronamento da economia, gerando por isso menos receitas em impostos;

alínea b) o ESTADO SÃO SERVIÇOS,  saúde, educação, segurança, defesa, finanças - LOGO, feitos por pessoas, LOGO, os gastos são em trabalho - sem trabalho não há serviços, ainda não se inventaram robôs para dar aulas e cuidar da saúde;

alínea c)  as reformas, são as garantidas contratualmente, e para as quais os beneficiários pagaram ao longo de décadas. Os seus fundos nem sequer deviam estar misturados com o orçamento do Estado, é aí que começa o abuso e a mistificação - ver em detalhe AQUI.

Ao mesmo tempo, a RTP omitia o peso dos juros e amortizações de empréstimos, incluindo o da Troika. Que, se fossem renegociados, daria um défice completamente diferente .

Em 2º lugar, a história do casal referido não é muito realista. O casal já tinha contactos, num deles é que a moça se fixou como recepcionista.

Depois dá-se pouca ênfase à declaração do dono (português) duma agência de emprego local: "As pessoas, em Portugal, não aceitam trabalhar mais que 35 horas semanais; mas aqui já aceitam 60 e mais horas. Se têm um emprego, mesmo  fraco, não saiam de Portugal. Há aqui portugueses a dormir na rua porque se lhes acabou o dinheiro e não arranjam emprego". O que pode ser confirmado AQUI. Aliás, quem acompanha as notícias já sabe disto há meses.

E quem é atento viu outros detalhes:

O melhor quarto que o casal arranjou é minúsculo, sem janelas e nos fundos da casa dum brasileiro que subaluga por 600€/mês. Os salários deles, de 6,5 € /hora, face aos custos de Londres (uma sanduiche tem o custo duma refeição completa em Portugal), não permitem poupar nada, a não ser que se faça pluriemprego, tipo, 10 horas de trabalho diárias, incluindo sábados e domingos. Ou seja, que não se viva. É isto um futuro?

Em 3º lugar, a reportagem, se quisesse ser honesta, devia ter falado  com os inúmeros portugueses vivendo na rua em Londres - bastava pesquisar no Google "portugueses a viver na rua, Londres". Os autores sabem muito bem disso, portanto foi uma opção com intenções propagandísticas claras.

Em 4º lugar, a economia inglesa, muito baseada na especulação e na lavagem de dinheiro da praça financeira da City (junto com Wall Street e Hong Kong, as maiores do mundo), já está em recessão (veja AQUI). O futuro da vida em Londres - metáfora da própria UE -  adivinha-se não ser brilhante.

CONCLUSÃO

O que está em causa não é o direito à emigração ou encontrar melhores condições noutro país. Faz parte da globalização, goste-se ou não.

O que está em causa é a propaganda mentirosa, intercalada com outras formas de alienação que tenho tentado desmontar neste blogue.

Esta enorme vigarice, de convencer que é bom ser obrigado a emigrar. Enquanto,  apesar de todos os avanços na agricultura, indústria, serviços, saúde, habitação, toda a tecnologia e infraestruturas que se obteve, do enorme nº de licenciados e doutorados, etc., se cai na situação social do antigo regime.

Perspectivas de vida, só  são possíveis com uma economia equilibrada regionalmente, com centros de decisão dentro do País, dando prioridade às necessidades da população, ainda que mantendo o país aberto ao mundo. 

A perda dessas perspectivas, acentuada pelo discurso do desGoverno, só leva ao despovoamento das regiões, ao envelhecimento do País a prazo e à destruição das famílias e das comunidades.