15/02/2012

Portugal cumpre vontade da "troika" mas fica à beira do abismo

Num artigo de 14 de Fevereiro último, o correspondente do New York Times, Landon Thomas, compara a situação grega com a portuguesa e afirma claramente que, apesar de Portugal, ao contrário da Grécia, ter cumprido tudo que a "troika" exigiu, a dívida portuguesa só se tem agravado e a economia do país não demonstra capacidade para responder ao crescente peso da dívida.

Link para o artigo de Landon Thomas no NYT, que abriu um debate público sobre o tema, AQUI.

De notar que mais importante que olhar um só ano isolado, é ver a tendência mais recente.

Ver por exemplo análise do Eurostat,  aqui (atentar no 3º gráfico do Eurostat).

Reportando-nos à dívida pública da UE e aos últimos 2 anos, a Grécia é o país com pior evolução, logo seguida de Portugal, que piora cerca de 20% de 2009 para 2012. A Itália, cujo Estado é mais endividado que o português, quase estanca a dívida estatal no mesmo período. Observe-se que uma parte desta dívida é interna, outra externa. (ver dados abaixo)

Além disso, não basta olhar para esse único indicador. Outros são essenciais para completar a análise, como por exemplo a dívida externa total.(ver quadro no final da página)

Ora Portugal tem uma dívida externa pesada, de 2,3 vezes (230%) o seu PIB, pior que a Grécia (160%) e muito pior que a Itália (110%). Isto significa também que a maior parte da dívida externa portuguesa é privada, contrariando algumas mentiras propaladas - tenha-se em conta que uma parte da dívida do Estado é interna (38%) (fígura 4. do link) -  subscrita por bancos, fundos de pensões e por particulares nacionais. Portanto sómente os restantes 62% são dívida do Estado ao exterior o que, fazendo as contas,  se traduz em que cerca de 2/3 da dívida externa portuguesa era, em 2009, de privados.

NOTA: O atual Governo tem estado a fazer com que o Estado assuma parte da dívida dos bancos, sendo pois  natural que ao longo de 2012 o peso do Estado na dívida externa aumente por via desta manobra artificial.


DADOS ESTATÍSTICOS DE SUPORTE:

Relação Dívida Pública / PIB  (%)
- evolução 2009-2012

Na União Europeia:

2009
2010
2011
2012

%
%
%
%
Grécia 
129,3
144,9
159,1


Itália
115,5
118,4
119,6



Portugal 
83,0
93,3
*112,0
*118,0
 *Previsão
Irlanda  65,2
92,5
104,9
Bélgica  95,9
96,2
*100,5 *Previsão
França79,0
82,3
85,0

Reino Unido  69,679,9
85,0
Alemanha   74,4
83,2
82,0
Espanha         53,8
61,0
66,0
Fontes:Eurostat,Reuters

Fora da U.E.
2009
2010
2011
2012
Japão
*216
*220
*233
*238
*Estimativas

EUA
*85
*94
*100
*105
 Fonte: Le Figaro- ver mapa mundial por anos e por países


  Relação Dívida Externa / PIB                                   

A
B


 
D.externa
PIB
Relação A / B
Portugal
507
222
2,3
Grécia
553
342
1,6
Itália
2.328
2.144
1,1
Alemanha
5.208
3.278
1,6
França
5.021
2.666
1,9
EUA
13.640 
14120
0,9
Japão
2.132
5.108
0,4
Fonte: Index Mundi
    Em dóls. EUA
Ano: 2009



Toda a U.E. - RELAÇÃO DÍVIDA PÚBLICA / PIB, em % (2011-3º trimestre)
FonteB.C.E.
EL-Grécia IT-Itália PT-Portugal IE-Irlanda BE-Bélgica EA17-Eurozona FR-França UK-Reino Unido HU-Hungria EU27-União Europeia DE-Alemanha AT-Áustria MT-Malta CY-Chipre ES-Espanha NL-Países Baixos PL-Polónia DK-Dinamarca FI-Finlândia LV-Letónia SI-Eslovénia SK-Eslováquia CZ-Rep.Checa LT-Letónia  SE-Suécia RO-Roménia LU-Lituânia BG-Bulgária EE-Estónia

Veja um gráfico animado da evolução da dívida pública de países europeus até 2011 (para melhor visualização dos valores exatos, aconselho tocar na linha de cada país), aqui - Eurostat.

Outro dado importante - relação entre dívida externa e o PIB, link para um bom artigo no blogue Geoscópio

Uma análise interessante, doutra dívida, a dos agentes privados. "15 dos 27 países da UE têm dívidas privadas superiores ao limite de 160% do PIB considerado seguro pela Comissão Europeia". Ver jornal Globo aqui.

A finalizar, o PIB per capita em vários países:

Produto Interno Bruto - valor absoluto e por habitante

PIB  (1 milhão €)
PIB per capita (1000 €)
2008
2009
2010
2008
2009
2010
2011
UE 27
1.135.6511.070.5411.114.58525,023,524,4
Eurozona 17
842.931812.234832.90228,127,027,6
Bélgica
31.57431.04232.45732,331,532,6
Alemanha
224.388215.660225.18930,129,030,331,4
Irlanda
16.38414.58114.21740,535,934,9
Grécia
21.19021.06920.66620,720,520,1
Espanha
99.57295.32395.66223,922,822,823,3
França
176.086172.323176.22230,129,329,8
Itália
143.562139.331141.64526,325,425,7
Hungria
9.5758.2858.80610,59,19,7
Polónia
32.93628.10532.2969,58,19,3
Portugal
15.65115.28015.66516,215,816,2
Reino Unido
164.067142.662155.52229,325,327,4
Islândia
93878586632,327,229,9
EUA
886.035907.045990.38131,932,535,4
Fonte: Eurostat



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08/02/2012

Sumário

Pode ler nesta página os seguintes tópicos:

Veja ainda as páginas seguintes:

ATUALIDADE - Globalistas contra a democracia na Europa

CRÍTICA AOS MEDIA - Itália e Espanha reféns dos especuladores

NOVA ORDEM MUNDIAL - Críticos  da Nova Ordem Mundial - teses e dados

MOVIMENTOS SOCIAIS - Occupied Wall Street

PORTUGAL - "Occupy" Lisboa - Estaremos à beira do Eurocalipse?

BRASIL - Graves ameaças à Amazónia / Um novo hegemonismo?

LINGUÍSTICA - Acordo ortográfico - eu concordo!

MÚSICA - Seleção de vídeos de alguns nomes que são referência de qualidade musical



Em defesa de Lisboa e das suas jóias arquitetónicas. Vejam e, se concordarem, assinem a petição a favor do antigo cinema Odeon:

Lisboa e o país precisam do Cinema Odeon Petition | GoPetition

Eu já assinei!




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09/01/2012

Era Uma Vez... - novo cinema brasileiro

 "Era Uma Vez..." faz parte desse movimento diverso mas com uma marca própria, que é já conhecido como Novo Cinema Brasileiro.

Anterior a Capitães da Areia (ver análise), plasticamente quiçá inferior, está no entanto bem acima no que respeita ao rigor da abordagem social. Uma história de amor tipicamente carioca é o pretexto para refletir dum modo cativante e universal o tema da relação entre pobres e ricos no Brasil.

Vale a pena ler a crítica aqui e, se conseguir adquiri-lo, ver o filme.

24/12/2011

Grandes Bandas

Radiohead - a fluidez tensa de existir

Para ver no You Tube clique nas imagens a seguir:
        Miniatura
1ª Imagem: No surprises - (apesar de ter 15 anos, esta música parece que foi feita para os nossos dias: "You look so tired and unhappy / Bring down the government / They don't, they don't speak for us")
2ª imagem: Creep - Vídeo oficial em HD - NÃO legendado (paciência com o anúncio inicial...)
3ª Imagem - Creep - Fantástica versão em piano e coro (filme "A rede social")
4º Imagem - From the basement 2008 (completo, gravado ao vivo no estúdio, excepcional)

Creep (Intruso, estranho) 

Oxford. Mais uma banda universitária em busca do rock alternativo, quando toda a cidade fervilhava de experiências underground. O nome Radiohead seria adotado, após múltiplas apresentações locais e algumas músicas editadas, em 1992, quando lançam o LP "Pablo Honey", que inclui Creep, tema com incontáveis "covers" em todo o mundo. Inicialmente proibido pela BBC por demasiado depressivo (!?), está hoje classificado como um dos 15 melhores temas para viola/guitarra de sempre. O tema é na verdade tão impactante que corre a história duma jovem que se suicidou depois de ouvi-lo.

O mais relevante nesta banda é o seu enorme rigor musical, a consistência entre as letras e a vida real inteligente, e a sua permanente criatividade. Com influências que vão desde o jazz, folk, eletro, passando pela música concreta, até à música sinfónica, não obstante a colagem simplista ao Hard Rock que lhe é feita, Radiohead vai muito além disso, como é visível na incrível sensibilidade melódica e nas experiências vanguardistas de muitos temas, sempre no registo único que é a marca da banda. Thom  Yorke, vocalista, pianista e guitarrista, é considerado o seu principal mentor, embora a produção da banda sempre fosse trabalho de equipa, da qual fazem parte integrante, para além dos músicos, os técnicos e amigos que se engajaram na produção.

Com várias faixas nos tops mundiais e a consagração da crítica e dos mais altos prémios, os Radiohead têm resistido ao apelo mercantil/consumista. Nos últimos anos optaram por gravar no seu próprio estúdio e promover o seu trabalho autonomamente através da Net.

Capa de Amnesiac (2001)
 A intensidade da melhor música dos Radiohead é um grito contra o sem-sentido da vida numa sociedade dominada pela superficialidade, pelo exibicionismo, pela sede do poder e pelo dinheiro. Embora Thom Yorke recuse liminarmente o rótulo de "músico de protesto", há uma carga óbvia de revolta no percurso musical da banda

Os álbuns Kid A (2000) e Amnesiac (2001), apesar de controversos,  são talvez o ponto mais alto dos Radiohead. Depois da paragem motivada por divergências resultantes do deslize para o pop subsequente ao disco OK Computer(1997) e também pela depressão profunda que atingiu Thom em 1998, o álbum Amnesiac é um retorno às origens, à autenticidade e ao dramatismo underground da fase inicial, mas de uma forma bem mais amadurecida e complexa. É  um álbum pesado - não vale a pena ouvi-lo se procura mero entretenimento. 

Mas se quiser fazer um exercício de escuta atenta dos Radiohead prepare-se para uma ato de transcendência. A sua música,  pelo menos a da melhor fase, é como uma oração a um deus ignorado, sem rituais obscurantistas, nem igrejas.

Os Radiohead: Thom Yorke, Jonny Greenwwod, Colin Greenwood, Ed O'brien e Phil Selway